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A força que não encontrou linguagem

Quando a cobrança ocupa o lugar do afeto.

Maria Klien 28 May 2026
Foto: Reprodução/Internet

Foto: Reprodução/Internet

Por Maria Klien, psicóloga

A história de Michael Jackson volta à cena como espelho de uma pergunta que muitas famílias ignoram, muitas vezes sem perceber que ela existe. O que acontece quando um pai acredita que amar é controlar, corrigir, exigir e endurecer o filho diante do mundo?

Essa pergunta nem sempre é recusada de forma consciente. Em muitos lares, ela sequer chega a ser formulada, porque a violência já foi transmitida como linguagem de cuidado, disciplina e formação. Pais violentos, em muitos casos, também foram filhos de pais violentos. Cresceram dentro de uma ordem afetiva na qual a dureza ocupou o lugar da presença, e a obediência foi confundida com amor.

O tema não pertence apenas à trajetória de um artista. Ele toca uma estrutura cultural antiga, na qual muitos homens foram ensinados a calar a dor, negar o medo e transformar afeto em comando. Quando uma geração não aprende a sentir, a seguinte pode receber a dureza como herança e repeti-la sem nome, sem crítica e sem consciência.

Há um masculino que confunde presença com vigilância. Ele acredita que preparar uma criança para a vida significa retirar dela o direito ao erro, ao descanso e à espontaneidade. Nessa lógica, a infância deixa de ser território de descoberta e passa a funcionar como palco de desempenho.

Essa repetição se sustenta porque, para muitos pais, questionar a própria forma de amar significaria tocar uma dor anterior. Se um homem percebe que aquilo que recebeu não foi cuidado, mas abandono, parte de sua estrutura interna pode desmoronar. Reconhecer a ausência de amor no pai costuma lançar o sujeito em um abismo psíquico, porque o abandono, na infância, é vivido como uma espécie de morte.

Por isso, muitos continuam repetindo. Não porque tenham elaborado uma escolha, mas porque acreditam, em uma camada profunda, que aquele modo de agir é o certo, o possível, o conhecido. A consciência verdadeira poderia abrir um caminho de mudança, mas também obrigaria esse sujeito a encontrar a criança que um dia precisou sobreviver sem acolhimento.

A criança que cresce sob controle excessivo aprende que ser amada depende de corresponder. O afeto passa a ter condição. A aprovação exige resultado. O olhar do pai deixa de acolher e começa a medir.

Essa dinâmica produz uma cisão que pode acompanhar o sujeito por décadas. Por fora, há brilho, talento, disciplina e reconhecimento. Por dentro, pode permanecer uma fome sem nome, ligada ao desejo de ser amado sem função, sem prova e sem espetáculo.

Violência não é apenas agressão física. Ela não se limita ao corpo, embora o corpo registre seus impactos. A violência também pode atravessar as palavras, a humilhação, o desprezo, a ameaça, o silêncio e a forma como um adulto invade a subjetividade de um filho. Ferir uma criança é também exigir dela maturidade emocional quando ela ainda está aprendendo a organizar medo, desejo, vergonha e frustração.

Há violência quando a criança é transformada em extensão do ego adulto. Quando precisa realizar o sonho que não lhe pertence. Quando passa a existir para sustentar a imagem, o orgulho ou a reparação emocional dos pais. Nesse ponto, a educação deixa de orientar e começa a sequestrar.

Muitos pais não ferem porque odeiam. Ferem porque nunca tocaram a própria dor. Foram meninos sem colo, cresceram sob códigos de resistência e aprenderam que ternura enfraquece. Depois, repetem sobre os filhos aquilo que ainda não conseguiram elaborar em si mesmos.

A tragédia familiar começa quando a força perde consciência. A mão que deveria proteger passa a conduzir com rigidez. A voz que poderia orientar começa a humilhar. A presença que deveria sustentar se torna ameaça.

Amor não molda uma criança até que ela caiba no desejo dos pais. Amor revela. Permite que o filho apareça com sua medida, seu ritmo, seu erro e sua singularidade. Onde há amor, há limite, mas não anulação.

Talvez a pergunta que o filme reacenda não seja apenas sobre Michael Jackson. Talvez seja sobre quantas crianças ainda crescem brilhando para fora enquanto imploram, por dentro, o direito de serem vistas sem medo.

 Sobre Maria Klien:

Maria Klien exerce a psicologia, com título de mestra na área, orientando sua investigação aos distúrbios relacionados ao medo e à ansiedade. Sua atuação clínica integra métodos tradicionais e práticas complementares, com foco nas demandas emocionais de cada indivíduo em seu contexto singular. Também é criadora do Psicologia da Moda, iniciativa que articula comportamento, identidade e expressão a partir da relação entre vestuário e subjetividade. Como empreendedora, se dedica à ampliação do acesso a recursos terapêuticos voltados à saúde psíquica, desenvolvendo instrumentos que contribuem para o equilíbrio mental e para o enfrentamento de questões que atravessam o bem-estar psicológico de cada paciente.

Coluna assinada
Maria Klien
Psicóloga, autora e palestrante internacional Maria Klien

Maria Klien é psicóloga com foco no estudo e tratamento de distúrbios relacionados ao medo e à ansiedade. Sua prática clínica combina métodos tradicionais e abordagens complementares, adaptadas às necessidades individuais. Como empreendedora, busca ampliar o acesso a recursos terapêuticos, promovendo ferramentas que auxiliam no equilíbrio emocional e no enfrentamento de questões que impactam o bem-estar psicológico.

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