Alexandre de Moraes, o centro que cresceu demais e agora incomoda
O ministro Alexandre de Moraes não surgiu da esquerda. Indicado ao Supremo Tribunal Federal por Michel Temer, Moraes sempre foi associado ao campo do centro político.
Próximo de figuras como Gilberto Kassab, e distante da militância histórica do Partido dos Trabalhadores. Em 2017, chegou a ser alvo de ataques públicos do próprio PT.
A virada ocorreu quando interesses convergiram. No contexto do embate institucional com o bolsonarismo, prevaleceu a lógica segundo a qual “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Setores da esquerda passaram a ver em Moraes uma peça central para neutralizar Jair Bolsonaro e seu entorno. A aliança foi tática, não ideológica.
O problema, segundo fontes ouvidas pela Not Journal, é que Moraes cresceu rápido demais. Ganhou protagonismo, poder e centralidade em um intervalo curto de tempo. Paralelamente, sua família ampliou patrimônio e influência, o que passou a gerar desconforto em setores tradicionais do establishment político e econômico.
Nos bastidores, fontes descrevem a existência de pactos históricos entre grandes grupos financeiros e de mídia. Nomes como André Esteves, BTG Pactual, Itaú Unibanco e Grupo Globo são frequentemente citados como atores que se ajudam e se protegem em momentos-chave do sistema.
A pergunta que circula em Brasília e na Faria Lima é direta: por que grupos que antes apoiavam ou toleravam Moraes agora parecem interessados em enfraquecê-lo? Para essas fontes, o receio é que o ministro tenha se tornado grande demais e imprevisível, inclusive ao interferir em disputas que afetam interesses econômicos sensíveis.
O caso do Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, é visto como especialmente delicado. Trata-se de um banco com forte presença no meio político, com relações que atravessam partidos e governos. Vorcaro, descrito por fontes como alguém de direita, teria acumulado poder suficiente para incomodar rivais estabelecidos, muitos deles associados à esquerda institucional e ao sistema financeiro tradicional.
No pano de fundo, há um paradoxo. O atual arranjo econômico, com juros elevados e forte concentração bancária, tem sido extremamente favorável aos grandes bancos. O governo Lula, segundo analistas, nunca foi tão lucrativo para o sistema financeiro. Ainda assim, as disputas de bastidores se intensificam.
O risco, apontam economistas e interlocutores do mercado, é que a complacência das elites com esse modelo aprofunde desequilíbrios. A economia não vai bem para a indústria, para o investimento produtivo ou para a maioria da população. No longo prazo, a instabilidade institucional cobra seu preço.
No caso Master, uma conclusão se impõe: há poucos inocentes. Quase todos os atores relevantes, de alguma forma, se sujaram. A briga não é moral. É por poder, influência e controle de um sistema que beneficia poucos e pressiona muitos.
A Not Journal segue apurando os fatos, ouvindo todos os lados e acompanhando os desdobramentos com independência editorial.