BILIONÁRIOS DA TECNOLOGIA ESTÃO OBCECADOS PELO FIM DO MUNDO
Enquanto acumulam bilhões e moldam o futuro digital, líderes do Vale do Silício preparam-se para o colapso global — e encontram respaldo em um livro obscuro dos anos 1990.
Ann Kiernan
O apocalipse, para os bilionários da tecnologia, não é um temor distante — é um cenário cada vez mais planejado. Enquanto Jeff Bezos celebra pré-casamentos em iates de meio bilhão de dólares e Elon Musk especula sobre colonizar Marte, nomes como Peter Thiel, fundador do PayPal e investidor de peso no Vale do Silício, parecem obcecados com a ideia de que a civilização, tal como conhecemos, está por um fio.
Essa mentalidade não surgiu do nada. Grande parte dessa paranoia moderna está enraizada em um livro cult escrito nos anos 1990: The Sovereign Individual, de James Dale Davidson e Lord William Rees-Mogg — este último, ex-editor do jornal The Times e pai do político britânico Jacob Rees-Mogg. A obra prega o colapso do Estado-nação tradicional, a ascensão de uma elite cognitiva transnacional e o fim da governança centralizada — substituída por um mercado digital global e descentralizado.
Peter Thiel é um dos entusiastas mais notórios da obra. Em sua introdução para uma reedição recente do livro, ele afirma: “O grande conflito sobre nosso futuro megapolítico está apenas começando”. Para ele e muitos outros no topo do setor de tecnologia, o colapso do mundo atual não representa uma tragédia — mas uma oportunidade de reconfiguração total da ordem mundial.
A lógica é clara: quanto mais digital for a economia, mais difícil será para governos cobrarem impostos e imporem regulações. Isso abre espaço para um novo tipo de elite — os “indivíduos soberanos” — que podem circular livremente pelo mundo, escolhendo jurisdições favoráveis e escapando das regras impostas aos cidadãos comuns. Os autores chegam a compará-los a deuses gregos, acima da massa “jingoísta e desagradável” deixada para trás.
Nomes como Marc Andreessen (Andreessen Horowitz) e Patrick Collison (Stripe) também já endossaram o livro publicamente. E embora suas previsões nem sempre se concretizem — guerras continuam, o Estado ainda arrecada e distribui recursos, e projetos como cidades flutuantes libertárias (seasteading) fracassaram — o imaginário permanece. A elite do Vale do Silício se prepara para o pior: bunkers subterrâneos, fazendas autossuficientes, casas à prova de colapso climático e planos de fuga interplanetários são realidades entre eles.
O que antes parecia distopia literária virou modelo de gestão patrimonial para os mais ricos. A ideia de que o colapso do sistema global é inevitável — e até desejável — virou não só um plano de sobrevivência, mas uma filosofia política. Para essa elite, o colapso não é um fim, é um começo: o início de um mundo onde tecnologia substitui o Estado e onde apenas os verdadeiramente preparados (e incrivelmente ricos) prosperam.