Canadá vive sua pior década de qualidade de vida em 40 anos — e o colapso ainda não terminou
Boom migratório, bolha imobiliária, sistema de saúde em crise e salários estagnados desenham o cenário de uma “década perdida” no país que já foi sinônimo de bem-estar
Um estudo recente do Fraser Institute aponta que o Canadá está enfrentando o pior declínio nos padrões de vida em 40 anos.
Por Not Journal
O Canadá, por décadas reconhecido como exemplo de estabilidade e qualidade de vida, vive hoje um declínio sem precedentes em seus padrões de vida. Segundo relatório recente do Fraser Institute, o país registrou entre 2019 e 2023 a terceira maior queda do PIB per capita ajustado por poder de compra em 40 anos, superando a crise financeira de 2008 e se aproximando do colapso dos anos 1990.
Desde o segundo trimestre de 2019, o padrão de vida caiu 3%, e analistas alertam: não há sinais de recuperação. Diferente de crises passadas, que foram seguidas por ajustes e retomada, o Canadá atual parece travado em um ciclo de baixa produtividade, altos gastos públicos e políticas populacionais mal calibradas.
#A bomba migratória: crescimento sem produtividade
Entre os principais fatores apontados para o colapso está o boom migratório promovido pelo governo Trudeau. Com a justificativa de enfrentar a escassez de mão de obra e acelerar o crescimento, mais de 1 milhão de imigrantes — incluindo refugiados e trabalhadores de baixa qualificação — entraram por ano no país entre 2022 e 2024.
O resultado foi um aumento brutal na demanda por saúde, habitação, transporte e infraestrutura, pressionando serviços públicos já sobrecarregados. Ao mesmo tempo, esses novos entrantes não contribuíram de forma proporcional para o aumento da produtividade, fazendo o PIB crescer apenas no agregado, mas cair por habitante.
#Aluguéis, saúde e salários: um país sob pressão
Os reflexos estão em toda parte. O mercado imobiliário virou uma bolha: o preço médio de uma casa subiu 337% em duas décadas. Salários reais estão estagnados desde 2016. E a saúde pública está em colapso — com tempo de espera recorde para atendimentos, hospitais superlotados e um número de leitos por habitante 63% menor do que em 1976.
A polícia federal canadense (RCMP) emitiu um alerta interno em 2024 sobre o risco de revolta social, diante da frustração de jovens que não acreditam mais ser possível comprar uma casa ou prosperar no país. O documento apontava “paranoia generalizada” e crescente descrença nas instituições como sinais do mal-estar.
#Trudeau caiu. E agora?
Com a crise econômica e o descontentamento social em alta, Justin Trudeau renunciou ao cargo de primeiro-ministro no início de 2025, após uma década no poder. Sua queda foi acelerada por escândalos, críticas à condução econômica e rejeição crescente à agenda “woke” — que, para parte dos eleitores, tratava de simbolismos enquanto o custo de vida explodia.
Quem ganha espaço é o conservador Pierre Poilievre, que cresceu nas pesquisas defendendo cortes de impostos, controle do gasto público, fim da taxação do carbono e limites à imigração desenfreada. Sua retórica direta e populista tem ecoado especialmente entre jovens, classes médias empobrecidas e pequenos empresários.
#O risco da década perdida
Economistas já falam abertamente que o Canadá pode estar entrando em uma década perdida. Sem reformas estruturais que melhorem a produtividade, aliviem a pressão migratória e reorganizem os serviços públicos, o país corre o risco de ver sua reputação internacional como exemplo de bem-estar ruir de vez.
A insatisfação da população é um sinal claro. Dois terços dos canadenses acreditam que o país “está indo na direção errada”, mesmo com indicadores macroeconômicos positivos. A queda na qualidade de vida já não é uma percepção — é um fato. E, ao que tudo indica, o fundo do poço ainda pode estar longe.