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Evento liderado por brasileiros em Harvard e MIT posiciona o Brasil Project no mercado global

O que uma conferência organizada por estudantes brasileiros em Harvard e MIT revela sobre a geração que está reescrevendo as regras do jogo.

Not Journal 14 Apr 2026
A primeira edição do Brasil Project, conferência organizada por brasileiros em Harvard e no MIT

A primeira edição do Brasil Project, conferência organizada por brasileiros em Harvard e no MIT

O termômetro mal passa dos dez graus, mas dentro do Harvard Science Center a energia é inequivocamente tropical. Gente jovem circula entre os Halls B, C e D com crachás pendurados no pescoço e aquela inquietação típica de quem quer absorver tudo ao mesmo tempo. Um detalhe me chama a atenção antes de qualquer painel começar: o nome do evento. Brasil Project. Brasil com S, como deve ser.

O Brasil Project é uma conferência nova. Esta foi sua primeira edição, realizada entre 10 e 12 de abril de 2026, nos campi de Harvard e do MIT. Organizada essencialmente por estudantes brasileiros dessas universidades, a programação se espalhou por três dias — sexta no Harvard Science Center, sábado no mesmo local com salas paralelas, e domingo no MIT Kresge. Dress code: o brasileiro. Tinha de tudo. E foi ótimo. Sem formalidades, sem ternos, gravatas e roupas sociais.

O que mais me surpreendeu foi o equilíbrio da curadoria. Conferências sobre o Brasil no exterior frequentemente caem em dois extremos: ou viram um desfile de queixas macroeconômicas, ou se transformam em celebração ufanista. O Brasil Project não fez nem uma coisa nem outra. Montou uma programação que transita com naturalidade entre o mundo dos negócios, a tecnologia, a política pública, a saúde e a cultura — sem que nenhum desses eixos domine os demais.

Essa abertura de repertório também apareceu na cultura e nas artes: em uma das conversas, o processo criativo de Sophia Loeb entrou como tema em si — uma lembrança de que construir um país (e uma carreira) também passa por imaginar, experimentar e reescrever narrativas.

Na sexta-feira, o evento abriu com Alex Behring e Victor Lazarte discutindo o playbook de operadores e investidores de classe mundial. Logo em seguida, um painel sobre infraestrutura financeira na era da inteligência artificial. E, para fechar o dia, Milton Beck, do LinkedIn, fazendo um raio-X do mercado de trabalho por trás do feed. Três painéis, três ângulos completamente diferentes, todos relevantes.

O sábado foi o dia mais denso. De manhã, Jorge Paulo Lemann e William Danoff conversaram sobre o que separa empresas duradouras das efêmeras — um painel que, pelo calibre dos convidados, justificaria o evento inteiro. Henrique Braun e Michel Doukeris, CEOs das duas maiores empresas de bebidas do mundo, explicaram como lideram com agilidade a partir do Brasil, com moderação de Don Sull, do MIT. E então veio o painel que talvez tenha sido o mais emocionante: "Entre o Brasil que temos e o Brasil que queremos", com Ilan Goldfajn, Tabata Amaral e Djamila Ribeiro, e abertura virtual do Ministro Luís Roberto Barroso.

À tarde, Roberto Campos Neto e Jason Furman debateram política econômica no Brasil e além — um diálogo raro entre um ex-presidente do Banco Central brasileiro e o ex-chairman do Council of Economic Advisers americano. Em paralelo, nas outras salas, os temas iam de segurança pública a futebol brasileiro, de saúde digital com IA à expansão de empresas chinesas no Brasil e no Sul Global.

O domingo, no MIT Kresge, foi reservado para o que talvez seja o traço mais distintivo do evento: a celebração do empreendedorismo brasileiro de impacto global. Luana Lopes Lara — a brasileira self-made que cofundou a Kalshi no MIT e se tornou a bilionária mais jovem do mundo aos 29 anos — abriu o dia com uma conversa sobre resiliência como vantagem competitiva. Esther Duflo, prêmio Nobel de Economia, apresentou a provocação "PIX do Clima" — uma proposta de grande barganha para adaptação, mitigação e compensação climática. Jonathan Gruber falou sobre sistemas de saúde que funcionam. Marcelo Cortes contou a trajetória da Databricks, de São Paulo ao Vale do Silício, até se tornar uma empresa de cinco bilhões de dólares. Mitchel Resnick e Leo Burd, do MIT Media Lab, discutiram aprendizado criativo na era da IA. E o encerramento? Zico. Liderança, pressão e o impacto do futebol na construção do Brasil.

Além dos painéis, dois programas paralelos merecem destaque. O Catalisa, da Fundação Estudar, voltado ao desenvolvimento de carreira de jovens brasileiros com potencial de liderança — desta vez em parceria com o Prep, da própria Estudar, e com o programa Oportunidades Acadêmicas do EducationUSA, da Embaixada Americana. Os 10 jovens brasileiros selecionados vieram de escolas públicas. E o Constellation Challenge, a maior competição universitária de análise fundamentalista da América Latina, patrocinada pela Constellation Asset Management. Estudantes de Harvard, MIT, Wharton, Columbia e das melhores faculdades brasileiras competem com cases reais de investimento. A final aconteceu ali, durante o evento, com a presença do CEO da RBI — e terminou com a equipe do Insper como vencedora. É o tipo de iniciativa que conecta formação acadêmica com prática de mercado de um jeito que simplesmente não existia há dez anos.

Mas o que ficou comigo, mais do que qualquer painel individual, foi a atmosfera. Conferências acadêmicas costumam ter um peso institucional que intimida. O Brasil Project conseguiu traduzir algo difícil de exportar: aquele espírito brasileiro de estar junto, de conversar nos intervalos com a mesma intensidade com que se ouve no auditório, de criar conexões que não precisam de protocolo. A informalidade não era descuido — era design. E funcionou.

Existe uma geração de brasileiros em Boston — e em outros centros globais — que não está esperando permissão para reimaginar o que o Brasil pode ser. Eles não pedem desculpas pelo sotaque, não anglicizam o nome do próprio país, e montam conferências onde um Nobel de Economia, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos e a bilionária brasileira mais jovem do mundo dividem a mesma programação com debates sobre segurança pública e educação na periferia.

O Brasil Project não é — ainda — o "Davos brasileiro" que outras conferências já reivindicam. Mas tem algo que eventos maiores e mais antigos às vezes perdem: a coragem de ser primeira edição. A liberdade de errar sem legado para proteger. E, talvez o mais importante, a convicção de que Brasil se escreve com S.

Coluna assinada
Bruno Stefani
Inovação, IA e Novos Negócios Bruno Stefani

Ex-diretor global de inovação da AB InBev, liderou novos negócios, startups e P&D, conectando demandas da empresa a soluções do ecossistema. Participou de projetos como o Zé Delivery. É board member da MIT Sloan no Brasil e colunista da HSM. Engenheiro formado pela UFSCar, é doutorando em Engenharia de Software e Corporate Venture. Também leciona na FDC, Insper e StartSe.

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