Notícias 24h no WhatsApp

Assine o Not Journal

Receba notícias em tempo real, análises profissionais e acesso ao Terminal Web.

Plano Básico
WhatsApp + Terminal básico
R$19,90 /mês
WhatsApp 24 Horas
Notícias por temas
Terminal Web básico
Começar Agora
Plano Completo
WhatsApp + Terminal Premium
R$299,90 /mês
Tudo do Básico
Terminal Web completo
Análises profissionais
Começar Agora

Inflação dos ricos é bem maior que o IPCA, mas mercado local não fala sobre isso.

A inflação enfrentada pelos mais ricos é “bem maior” que a medida pelo IPCA, segundo o economista e gestor de fortunas, João Henrique da Fonseca, colunista do NotJournal.

Not Journal 07 Apr 2026
Foto: Inflação dos ricos / JH Fonseca

Foto: Inflação dos ricos / JH Fonseca

Olhe atentamente o gráfico abaixo e responda honestamente: sua lógica atual de investir no Brasil está mantendo você no jogo dos ricos?

O mundo se acostumou com os chamados índices de preços (IPCA, IGPM, IPC, CPI, etc.). Mesmo depois de mudanças profundas na dinâmica econômica, o jeito pelo qual medimos e debatemos inflação não mudou nas últimas décadas. Pior: análises rasas tendem a tomar os índices de preços como premissa inquestionável, levando-as a conclusões estranhas.


Não é raro que economistas digam que a “inflação dos ricos é menor”. Claro, se eles considerarem que as métricas utilizadas nos índices são aderentes à realidade atual. Esses indicadores são ótimos em capturar os preços da economia real e do consumo do dia a dia. Contudo, uma pergunta sutil como “e se você incluísse a capacidade de os ricos adquirirem ativos como imóveis e partes de empresas no seu índice?” é suficiente para implodir a conclusão de que a inflação deles é menor.


No Brasil, o setor de serviços dominou a economia, as pessoas estão vivendo quase 80 anos, streaming de filmes e séries se tornou fundamental para não morrer de tédio, viagens com experiências exclusivas se tornou “necessidade básica” dos ricos, assim como ter uma segunda casa em outro país ou filhos estudando em Harvard ou Oxford... mas, apesar disso tudo, os private bankers continuam medindo o rendimento real dos ricos em excedente de IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).


É assustador que, diante de um título público negociado a IPCA + 7%, por exemplo, seja dito que há “sete por cento de rendimento real praticamente sem risco”. Primeiro, essa lógica ignora completamente as flutuações no valor de mercado dos títulos, algo que pode ser capturado melhor nos índices de NTNBs (como o IMAB, IMAB5, etc.). Segundo, a afirmação pressupõe que o detentor carregará o papel até o final. Terceiro, a variação cambial é ignorada. Quarto, a cesta de consumo do cliente é esquecida ao tomar o IPCA como base.


Preços dos ativos importam muito mais para os ricos.


Economistas costumam falar que você teve rendimento real quando a valorização do seu ativo manteve o seu poder de consumir e agregou alguma coisa. Porém, este conceito parece obsoleto para ricos. É preciso falar em dois tipos distintos de inflação: (1) a inflação de preços ao consumidor e (2) a inflação de preços de ativos globais. Não basta só medir seu poder de consumo, mas também o de investimentos em ativos que mantenham o seu estoque relativo de riqueza no globo.


O primeiro tipo de inflação diz respeito à sua capacidade de comer, beber, dormir, etc. da mesma forma de sempre no Brasil. O segundo tipo de inflação diz respeito à sua capacidade de manter sua riqueza relativa em termos globais. Muito embora um jantar em Nova York ou uma viagem de luxo para Aspen sejam atos de consumo, seus preços são sensíveis ao efeito riqueza dos ativos financeiros americanos. O mesmo ocorre, por exemplo, com os preços dos imóveis em cidades globais, com o valor de fatias de boas empresas, etc.


A maioria dos americanos possui recursos investidos em bolsa. São mais de 160 milhões de pessoas! É por isso que, quando os ativos de lá sobem, eles gastam mais. É o “efeito riqueza”, que gera inflação em dólares no mundo todo e faz você ter a sensação de que está ficando mais pobre quando fica uma temporada em Nova York, Miami, São Francisco, etc.


Não é sensação. É realidade.


Quantos apartamentos em Miami sua fortuna comprava antes e quantos compra agora? Quantas unidades de S&P500 sua fortuna comprava antes e agora? Quantos jantares em Nova York sua renda era capaz de bancar antes e quantos banca agora? Quantas anuidades de uma boa faculdade americana sua renda era capaz de bancar e quantas banca agora? Quantos tratamentos de saúde pioneiros? Hoje, por exemplo, um tratamento de CAR-T da Janssen para mieloma múltiplo custa cerca de R$3 milhões e torna uma doença, antes quase certamente mortal, em algo curável ou administrável.


Riqueza é ter acesso a esse tipo de cuidados. Riqueza é poder jantar em uma cidade global sem que aquilo esteja pesando cada vez mais. Riqueza é saber que sua fortuna comprava X unidades de S&P500 e segue comprando as mesmas X unidades ou até mais.

 

Seria interessante que os economistas acadêmicos do mundo construíssem um indicador consensual para avaliar esses efeitos, mas como isso ainda não foi feito é importante ter um Norte. Para os interessados em continuar ricos, correr riscos é preciso.


O recente rally de commodities e da bolsa brasileira não muda a dinâmica estrutural de geração de valor em que estamos inseridos, muda?


Já faz cerca de 15 anos que a riqueza dos homens mais ricos do Brasil em dólares não sai do lugar, ao passo que os americanos crescem exponencialmente. Ficar obcecado com CDI e IPCA+, míope e incapaz de olhar a geração de equity value de boas empresas globais, é receita para perda da riqueza real de uma família no longo prazo.


O Brasil, afinal, segue um país com problemas profundos de qualificação da mão de obra, com sistema de tributos que não incentiva nem a inovação e nem a geração emprego e equity value (que são mais tributados que aplicações de renda fixa), com fiscal desarranjado e causador de juros estruturais altos e com população envelhecendo rápido sem ter enriquecido, ou seja, causando desafios a uma necessária nova reforma previdenciária.


Diante disso, o Brasil conseguirá se inserir nos elos mais dinâmicos e geradores de valor da cadeia produtiva, especialmente em tempos de IA? Ou seguirá como um país que performa bem em tempos de crise geopolítica, com alta de hard commodities, mas não é capaz de gerar equity value em tempos de paz e estabilidade?


Para as famílias ricas, a pergunta que interessa é: como o gráfico do início desse texto estará daqui a 10, 20 e 30 anos?


O lendário investidor Charlie Munger sempre julgou dinâmicas pelos seus incentivos. Façam o mesmo para obterem as respostas da pergunta anterior.


João Henrique da Fonseca (JH Fonseca): economista, gestor e sócio fundador da Azul Wealth Management (AWM), com mais de R$1,2 bilhão sob gestão. Fez carreira no Itaú BBA, onde ingressou em 2013 e permaneceu até 2021. Atuou principalmente com operações estruturadas para Estatais, Governos e empresas do Middle Market.  É formado em ciências econômicas pela Universidade Estadual de Campinas.

Coluna assinada
João Henrique da Fonseca
Economista João Henrique da Fonseca

Economista, sócio fundador e gestor da Azul Wealth Management (AWM), com mais de R$1,2 bilhão sob gestão. Atua principalmente fazendo a seleção direta de ações globais (stock picking) e títulos de renda fixa.

Compartilhar