O Brasil é um eterno tarifaço de si mesmo
Brasília reagiu como vítima lá fora mas age como algoz aqui dentro.
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Quando Washington anuncia tarifa contra produto brasileiro, Brasília veste o figurino da indignação. Faz sentido. O problema é o contraste. O país reage como vítima no palco externo e passa boa parte do tempo atuando como algoz dentro de casa. Nesta semana, os Estados Unidos anunciaram tarifa de 25% sobre a maior parte das importações vindas do Brasil. A resposta oficial foi dura. Só que, antes de apontar o dedo para fora, talvez valha uma olhada no espelho.
O Brasil não precisa de guerra comercial para encarecer a própria vida. Faz isso sozinho, com método, criatividade e frequência. Chama de ajuste, chama de defesa da indústria, chama de recomposição fiscal. No fim, o resultado costuma ser o mesmo: máquina mais cara, investimento mais hesitante, planejamento mais curto e empresário aprendendo a tocar o negócio como quem pisa em chão molhado. No começo do ano, o governo elevou tarifas sobre mais de 1.200 bens de capital e tecnologia para reforçar caixa. Pouco depois, teve de recuar em parte da medida e restaurar tarifa zero para itens considerados essenciais.
Essa é a parte curiosa do nosso talento nacional. O país sobe custo de quem quer produzir e depois corre para desfazer o estrago quando percebe que atingiu equipamento, infraestrutura e expansão. Não é bem política industrial. Parece mais aquele gestor que aumenta aluguel da própria fábrica e depois abre um comitê para discutir competitividade.
O roteiro se repete em outras frentes. Em 2024, o Planalto sancionou a taxação de compras internacionais de até 50 dólares. Em maio deste ano, revogou o tributo. No meio do caminho, ficou a especialidade brasileira de sempre: mudar a regra, testar o humor da rua e chamar de correção o que já nasceu improvisado.
Nem quando a ideia é arrecadar o enredo sai exatamente como prometido. A nova tributação de dividendos entrou em 2026 com a missão de ajudar a fechar a conta da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. Nos dois primeiros meses do ano, porém, recolheu menos de 1% do total esperado para o exercício. O país vende ambição fiscal e entrega um laboratório de tentativa e erro.
É por isso que o maior tarifaço brasileiro não está apenas na alíquota. Está na instabilidade. Imposto alto, por si só, investidor conhece. O que assusta é outra coisa: um ambiente em que a lógica muda rápido, o remédio vem antes do diagnóstico e a correção chega logo depois da barbeiragem. Capital não foge apenas de carga pesada. Foge de lugar em que ninguém sabe quanto tempo a regra dura sem precisar de retratação.
No discurso, o Brasil quer neoindustrialização, produtividade, inovação, transição energética, data center, fábrica, cadeia local, mais investimento. Na prática, trata importação de máquina como pecado eventual, mexe no custo de tecnologia quando o caixa aperta e transforma previsibilidade em artigo de luxo. Depois, quando a economia cresce menos do que poderia, sempre aparece alguém culpando o cenário internacional, a China, o Federal Reserve, o clima ou a lua.
Talvez o ponto mais brasileiro de todos seja este: o país reclama do pedágio cobrado pelos outros enquanto mantém uma praça própria, cara, lenta e mal sinalizada na porta da própria produção. E ainda se surpreende quando o caminhão decide não entrar.
Roberto Valverde é advisor de M&A e conselheiro consultivo, com trajetória construída na prática empresarial. Após fundar a Master Park e vender a companhia ao Pátria, passou a atuar em processos de venda, estratégia e governança para empresários e acionistas. Escreve sobre negócios com foco em criação de valor, decisões estratégicas e os bastidores reais do mundo empresarial.