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O Brasil quer 5x2 com governança 7x0

No Brasil, até a discussão sobre descanso chega cansada.

Not Journal 17 Jun 2026
Foto: Reprodução/Internet

Foto: Reprodução/Internet

A Câmara aprovou a PEC que troca a lógica da escala 6x1 por jornada máxima de 40 horas semanais, em cinco dias de trabalho e dois de descanso. O texto passou em dois turnos com ampla maioria e agora está no Senado, onde o próprio presidente da Casa avisou que o tema não será apenas carimbado.

Até aqui, tudo bem. País sério discute jornada, revisa produtividade, debate qualidade de vida, custo do trabalho e competitividade.

O problema brasileiro é jeito como discute.

Antes da PEC andar na Câmara, o governo já tinha enviado um projeto de lei com urgência constitucional defendendo 40 horas semanais, dois dias de descanso e proibição de redução salarial. Ou seja, o país conseguiu fazer o que faz melhor: abrir duas portas para entrar no mesmo assunto e transformar uma mudança estrutural em disputa de rito, narrativa e protagonismo.

Uma empresa minimamente organizada não mexe em custo fixo, escala operacional e jornada de milhões de pessoas nesse clima de improviso elegante.

Ela modela impacto por setor.

Testa transição.

Discute exceções.

Ouve operação.

Mede produtividade.

Prepara comunicação.

Define governança.

Aqui, não. A sensação é de reunião mal convocada com pauta relevante, ego inflado e ata escrita no elevador.

O mais curioso é que o debate tenta vender modernização enquanto exibe, em praça pública, o exato oposto de maturidade institucional. A Câmara aprovou a proposta com transição e previsão de leis específicas para algumas carreiras. O Senado, por sua vez, já sinalizou que quer reabrir a discussão.

E é aqui que o Congresso começa a parecer uma empresa mal governada.

Nas companhias confusas, também funciona assim. Primeiro vem o discurso bonito. Depois, a decisão apressada. Em seguida, o desalinhamento entre as áreas. Mais adiante, o jurídico entra em cena para explicar o que o negócio quis dizer. E, por fim, todo mundo finge surpresa quando o resultado fica pior do que a apresentação em PowerPoint prometia.

O investidor olha para isso e não vê apenas uma discussão trabalhista.

Ele vê processo decisório.

Ele vê previsibilidade.

Ele vê capacidade de coordenação.

Ou a falta dela.

Há ainda um detalhe delicioso nessa história. O governo usa o argumento social, a oposição reage com o argumento econômico, o Congresso posa de mediador e, no meio de tudo, o Brasil continua com a velha especialidade nacional: tomar decisão grande sem mostrar com clareza quem fez a conta inteira. A própria campanha oficial do governo fala em impacto potencial sobre milhões de trabalhadores celetistas, inclusive 14,8 milhões em escala 6x1. Isso é grande demais para ser tratado como slogan e ruidoso demais para ser vendido como planejamento.

O ponto deste debate não é ser contra descanso. Nem ser contra empresa.

É ser contra bagunça com pose de política pública!

É o que consegue discutir o futuro do trabalho sem parecer uma companhia que trocou o ERP na sexta, demitiu o time de integração na segunda e marcou o comitê de crise para terça.

Nenhuma economia inspira confiança quando o descanso promete ser 5x2, mas a condução continua sendo 7x0.

Coluna assinada
Roberto Valverde
M&A, governança, estratégia e bastidores de empresas familiares Roberto Valverde

Roberto Valverde é advisor de M&A e conselheiro consultivo, com trajetória construída na prática empresarial. Após fundar a Master Park e vender a companhia ao Pátria, passou a atuar em processos de venda, estratégia e governança para empresários e acionistas. Escreve sobre negócios com foco em criação de valor, decisões estratégicas e os bastidores reais do mundo empresarial.

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