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O jeito old school de fazer gestão morreu?

Entre o abuso do passado e a performance do presente, a gestão continua falhando no essencial.

Not Journal 12 Apr 2026
Executivo cansado segurando whisky no escritório

Executivo cansado segurando whisky no escritório

Eu lembro do whisky cowboy na gaveta da sala. Não era glamour. Era anestesia de luxo. Um gole pra comemorar, dois pra engolir o dia, três pra fingir que amanhã seria mais leve. Ninguém falava “burnout”. A gente chamava de “rotina”. E se alguém desabasse, a explicação vinha pronta: “não aguentou”.

As reuniões com gestores eram ringue com ata. Tinha porrada verbal, tinha “phodeback” e tinha aquele teatro final de reconciliação, como se cinco minutos de paz resolvessem semanas de covardia e sabotagem. No fim, todo mundo saía com a mesma sensação: apanhou, mas “aprendeu”. Todo mundo na fé que estávamos alinhados com os interesses da empresa.

Concorrência era tratada com desprezo, como deve ser quando o ego paga a folha. E quando existia parceria, bastava o “fio do bigode”. O contrato era moral, a garantia era reputação, e a multa era vergonha. Hoje o mundo quer formalizar até o bom-dia. Confiança virou planilha e a relação virou checklist. O medo do print substituiu a coragem de decidir.

A meritocracia de dono era uma loteria com cara séria. Subjetiva, injusta às vezes, brutal outras. Mas pelo menos tinha uma verdade: quem entregava aparecia. Ideia boa era o bilhete na mão do dono. Não tinha ritual de inovação, nem facilitação, nem mural colorido, nem sessão de “ideação” com gente que nunca vendeu nada discutindo propósito em círculo.

Aí veio a modernidade. Chegou sorrindo, de tênis branco e vocabulário higienizado. Trouxe o “feedback estruturado”, a cartilha de comunicação não violenta, o comitê de diversidade, o comitê do comitê, e a cerimônia mensal de autoestima corporativa com balão na recepção — uma empresa que fatura bilhões e decora o saguão como buffet infantil pra convencer adulto cansado de que trabalha num lugar “incrível”, Great Place to WOKE.

O velho mundo era duro. O novo é frágil e burocrático. Um vendia brutalidade como eficiência. O outro vende sensibilidade como performance. Um tinha excesso de porrada. O outro tem excesso de teatro. E os dois, curiosamente, continuam excelentes em uma coisa: proteger os medíocres bem relacionados.

No meu tempo, a catarse era no baba (jogo de futebol) da firma. Você resolvia desavença no carrinho, no grito, no olho no olho. O chefe mala levava uma chegada e virava folclore. Hoje a empresa trocou isso por beach tennis, corrida às cinco da manhã e foto de whey — a nova moeda de competência é parecer saudável na rede social. A gestão virou estética e a liderança virou figurino.

Eu não acho que o passado era melhor. Tinha muita coisa errada. Tinha abuso, tinha ego, tinha gente passando do ponto e chamando de “cobrança”. Só que o presente conseguiu o feito de trocar parte do abuso por um sistema inteiro de autoengano.

O mundo está muito chato ou será que estou ficando velho? Prefiro a “velha guarda”.

Coluna assinada
Roberto Valverde
M&A, governança, estratégia e bastidores de empresas familiares Roberto Valverde

Roberto Valverde é advisor de M&A e conselheiro consultivo, com trajetória construída na prática empresarial. Após fundar a Master Park e vender a companhia ao Pátria, passou a atuar em processos de venda, estratégia e governança para empresários e acionistas. Escreve sobre negócios com foco em criação de valor, decisões estratégicas e os bastidores reais do mundo empresarial.

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