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Por que tantos empresários param de ver imposto como dever e passam a ver como castigo

Not Journal 28 Mar 2026
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Existe uma cena simples que ajuda a entender o drama de boa parte do empresariado brasileiro.

Imagine alguém com fome diante de um prato bonito, da Tânia Bulhões (feita na Turquia contém ironia). Caro, sofisticado, daqueles que parecem peça de decoração. Só que, no centro, vêm três ervilhas.

A pergunta deixa de ser estética, vira sobrevivência. Você rouba a louça e vende para pagar o jantar ou tenta achar comida de verdade?

É mais ou menos assim que muitos empresários enxergam a relação com o Estado no Brasil.

No papel, pagar imposto é parte do contrato social. Na prática, para milhares de empresas, virou um sistema de asfixia. O empresário produz, emprega, investe, financia estoque, banca galpão, frota, segurança, seguro, capital de giro e ainda precisa antecipar tributo antes mesmo de receber pela venda que fez.

No setor de distribuição de alimentos, por exemplo, a conta é cruel. É um negócio de margem apertada, muitas vezes entre 3% e 4%, com EBITDA que raramente passa de 8%. Ao mesmo tempo, exige capital intensivo o tempo todo. É preciso investir em estrutura logística, bancar transporte, sustentar operação, pagar equipe e esperar até cem dias para receber.

Só que o imposto não espera 100 dias.

A nota fiscal sai antes. O tributo sai antes. O caixa sai antes.

Na prática, a empresa financia o governo com um dinheiro que ainda não entrou. Depois, para não travar a operação, corre para o banco e pega capital de giro a 2% ao mês. O que já era uma margem magra vira quase nada.

E tudo isso para quê?

Não para rodar numa malha viária eficiente. Não para contar com segurança pública compatível com o risco da carga transportada. Não para reduzir custo logístico. Não para melhorar previsibilidade. Não para proteger quem produz.

Ao contrário.

A empresa ainda precisa gastar mais com seguro, rastreamento, prevenção de roubo e gestão de risco, porque sabe que, se der errado, a conta é dela.

Ou seja, o empresário paga imposto e depois paga de novo pelo que o Estado não entrega.

É aqui que nasce uma distorção moral perigosa.

Muita gente deixa de enxergar o imposto como contribuição legítima e passa a tratá-lo como penalidade por produzir. Não estou falando de certo ou errado no campo legal. Estou falando de lógica econômica e de percepção prática.

Quando o empresário conclui que está trabalhando para sustentar uma engrenagem ineficiente, a decisão deixa de ser filosófica. Vira cálculo de sobrevivência.

Alguns entram em parcelamentos eternos. Outros empurram passivos tributários até o limite. Em casos extremos, encerram uma empresa, abrem outra e recomeçam o ciclo. Não porque isso seja bonito. Não porque seja moralmente nobre. Mas porque, para muita operação, é a diferença entre morrer agora ou ganhar fôlego para continuar.

O problema é que um país em que empreender leva o empresário a escolher entre inadimplência fiscal e inviabilidade econômica não tem um problema de caráter. Tem um problema de sistema.

O Brasil trata quem produz como se sempre tivesse caixa sobrando. Como se margem fosse infinita. Como se capital de giro brotasse do chão. Como se pagar imposto antes de receber fosse detalhe operacional, e não um mecanismo perverso de destruição de liquidez.

No fim, a discussão real não é se o empresário quer ou não pagar imposto.

A discussão real é outra: o Estado brasileiro cobra como país de primeiro mundo e entrega como estrutura de risco de país quebrado.

E quando essa conta não fecha, sobra para quem está na ponta segurando folha, caminhão, fornecedor, cliente e banco ao mesmo tempo.

Ninguém deveria ser empurrado a escolher entre cumprir tudo e quebrar, ou sobreviver devendo.

Porque, quando o prato vem bonito, caro e quase vazio, a conversa deixa de ser sobre etiqueta.

Passa a ser sobre fome.

Coluna assinada
Roberto Valverde
M&A, governança, estratégia e bastidores de empresas familiares Roberto Valverde

Roberto Valverde é advisor de M&A e conselheiro consultivo, com trajetória construída na prática empresarial. Após fundar a Master Park e vender a companhia ao Pátria, passou a atuar em processos de venda, estratégia e governança para empresários e acionistas. Escreve sobre negócios com foco em criação de valor, decisões estratégicas e os bastidores reais do mundo empresarial.

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