UnDavos: onde o poder econômico se articula fora da agenda oficial
Esses fóruns construídos por governos e instituições multilaterais definem narrativas e prioridades que reverberam em políticas públicas e acordos internacionais.
Quando estive no World Economic Forum em Davos (primeira vez em 2023 e venho repetindo todo ano), a principal coisa que fica clara é que os principais temas que moldam o sistema internacional — diplomacia, política pública e relações entre Estados — são debatidos intensamente nos painéis oficiais.
Mas o que raramente aparece nas pautas oficiais da grande imprensa é que essas diretrizes só prosperam se forem aceitas e praticadas pelos mercados reais. Seja no mercado financeiro, nas cadeias globais de commodities, na tecnologia ou no agronegócio, e outros, é o mercado — com seu objetivo, seu fluxo de capital e sua lógica — que, de fato, legitima, adapta ou rejeita propostas. Essa dinâmica complexa entre diplomacia e mercado é a verdadeira força que molda tendências globais, independentemente do que é anunciado nos palcos oficiais de Davos.
E é aí que entra o que eu vi chamarem de UnDavos — tudo aquilo que acontece paralelamente: as conversas nos corredores, os eventos fora da agenda institucional, os encontros que não entram nos releases oficiais. Em 2025, por exemplo, estima-se que durante a semana de Davos tenham acontecido cerca de 1.500 sessões e eventos paralelos, entre encontros privados, painéis independentes, reuniões setoriais e atividades informais, listados em ferramentas como o app que organiza a “DavosWeek”.
Entre esses movimentos não oficiais, um dos mais notáveis é o UnDavos Summit, idealizado por Mark Turrell — um alemão radicado na Suíça que há anos constrói uma comunidade descentralizada de painéis, debates e conexões que ocorrem paralelamente à agenda tradicional em Davos.  A proposta é clara: ampliar o acesso às discussões, democratizar as conexões e traduzir o que acontece de fato, fora dos holofotes, para além das esferas diplomáticas e institucionais.
O que fica dessa experiência — e que muitas vezes não é captado nas principais capas — é que os movimentos de mercado, a inovação e as parcerias que realmente geram impacto costumam nascer nesse “lado B” de Davos, onde atores diversos dialogam, testam ideias e formam coalizões que depois, muitas vezes, influenciam as agendas oficiais. Essa observação me ensinou que o poder hoje está tanto no que é dito nos plenários quanto no que é acordado nos corredores.