Chernobyl: o custo da religião política.
Como a série Chernobyl demonstra o erro de ideologias políticas que funcionam tal qual uma religião.
poster da série Chernobyl ( 2019 )
O slogan da série não poderia ser mais acertado: “Qual o custo das mentiras?”. A mentalidade revolucionária, não se importa em ter dívidas com a verdade, pois não há mentiras para eles e sim o que ajuda ou o que atrapalha a revolução. Prova disso é que nessa mentalidade não há uma noção de passado estático que possui a própria verdade do que ocorreu, mas pelo contrário, o passado é interpretado conforme o futuro que já é garantido pela ideologia. É uma das inversões revolucionárias de que falava o professor Olavo de Carvalho.
O custo da verdade para um revolucionário é muito alto e, portanto, vale mais a pena mentir e construir pilhas e pilhas de falsidades, desde que isso contribua para o estabelecimento do poder. Prova cabal disso é o acontecimento de Chernobyl, onde fanáticos pela ideologia comunista soviética simplesmente permitem uma camada incontável de mentiras que escondeu uma falha técnica grande o suficiente para ser responsável pela morte de milhares de pessoas e afetou permanentemente a vida de um número incontável de pessoas em deslocamentos forçados e doenças causadas diretamente pela radiação proveniente do reator 4 (fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/08/10/os-tragicos-numeros-de-chernobyl-acobertados-pelos-sovieticos-que-agora-vem-a-tona.ghtml ). A culpa do desastre de Chernobyl é mais da fé dogmática do Partido Comunista da União Soviética no Estado e em como sua palavra era a garantia da verdade, acima da realidade, do que de uma falha técnica causada por operadores ruins na sala de controle.
O fenômeno da religiosidade substantiva na política - este pode ser estudado no livro A Religião Civil do Estado Moderno, de Nelson Lehmann - é claro na cena do primeiro episódio, ilustrada na imagem acima. Aliás, os diálogos na série não são fatos históricos, portanto estamos utilizando a série aqui apenas como um elemento cinematográfico. Um dos membros do Estado, o mais velho, chama a atenção de todos na mesa para refletirem na fé que têm em relação ao socialismo soviético. Diante de uma situação em que a explicação não é encontrada de forma direta, a realidade grita. Porém, na dúvida, a falsa experiência religiosa fala mais alto. “O Estado disse que a situação está sob controle, escutemos o Estado”. Apesar da declaração fatal de um dos presentes que alerta sobre a gravidade da situação, é o sentimento religioso que responde às questões postas em voga na mesa. De modo que ela, a religião, se torna o valor referencial da qualidade da ação e também de qual ação será tomada. É a fé na legitimidade do Estado que, ao responder a questão, tranquiliza todos na mesa e dá o modo de ação. Eles irão mentir para a população, têm consciência disso e do crime que estão fazendo, mas “deixe assuntos do Estado para o Estado”.
Na cena acima outro episódio demonstra algo interessante. A realidade é imperativa. Talvez não fique muito claro à primeira vista, mas vamos a uma descrição do contexto da cena: após algumas horas da explosão do reator o secretário-geral da URSS (Gorbachev) se reúne com oficiais do Partido Comunista a fim de debaterem as ações necessárias diante do incidente. Professor Legaslov é chamado para tratar de matérias relativas à explicação do impacto do acidente, e antes mesmo dele ser consultado, a reunião é encerrada, pois “Se o Estado disse, então está dito”. Desacreditado da situação, o secretário-geral ainda pede a Boris que vá verificar se realmente a situação é tão alarmante. Perceba que uma das pautas da mesa é se a informação chegou à mídia internacional.
Caso o acidente chegasse às comunidades internacionais, uma das poucas garantias de prestígio da nação soviética iria por água abaixo. Tenha em vista que os reatores RBMK eram encontrados não só em Chernobyl, mas também em uma maior extensão territorial. Se a explosão fosse confirmada e isso chegasse às comunidades internacionais, a URSS seria vista como responsável pelo acidente (o que de fato era).
Nisso tudo temos uma inversão do papel da verdadeira religião. Enquanto a verdadeira prática religiosa revela algo a nós, a religião estatal/civil encobre seus males - por não ser Deus, é imperfeita e precisa esconder essas imperfeições -, de tal modo que é melhor mentir. A ideologia, sendo uma religião às avessas, esconde partes da realidade e promete o paraíso terrestre após o juízo que irá julgar os bons dos maus. Nisso consiste a mentalidade revolucionária como apresentada pelo professor Olavo. E nisto consiste uma espécie de religião ateísta, prometendo o paraíso num local onde é impossível que ele se realize.
Correção Gramatical:
- Gemini AI ( Google )