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O vício no celular chegou a um ponto em que assistir a um filme parece um ato produtivo

Em meio a microdoses de dopamina e rolagem infinita, assistir a um filme inteiro se tornou um exercício de foco.

Bruno Richards 25 Oct 2025
A geração que precisa “se permitir” ver um filme inteiro

A geração que precisa “se permitir” ver um filme inteiro

A dependência do smartphone atingiu um ponto em que atividades antes associadas ao lazer — como assistir a um filme — agora são vistas como um ato de produtividade.

Pesquisas recentes em comportamento digital mostram que o uso constante de telas pequenas, principalmente redes sociais e aplicativos de mensagens, reconfigurou o sistema de recompensa do cérebro.

Hoje, a ideia de se desconectar por duas horas para acompanhar uma narrativa única parece quase uma tarefa disciplinada. Enquanto rolar a tela gera microdoses contínuas de dopamina, filmes exigem foco, paciência e atenção prolongada — habilidades que estão se tornando cada vez mais raras.

Especialistas chamam o fenômeno de “paradoxo da atenção fragmentada”: as pessoas acreditam estar descansando enquanto consomem conteúdos rápidos, mas o cérebro permanece em estado de alerta. É um descanso que não descansa.

Por isso, sentar para assistir a um longa sem distrações já é percebido por muitos como uma forma de autocuidado ou até produtividade — uma pausa ativa para desacelerar.

De acordo com dados da consultoria DataReportal, o tempo médio global de uso do celular ultrapassou 5 horas por dia em 2025, com grande parte desse tempo dedicado a vídeos curtos e aplicativos de social media.

No TikTok, por exemplo, a média diária já supera 90 minutos — tempo suficiente para ver um filme inteiro. A diferença é que, nas redes, o conteúdo é fragmentado em centenas de microclipes, cada um competindo pela atenção em segundos.


#A economia da distração

A economia digital foi construída sobre o princípio da atenção como ativo escasso. Plataformas, criadores e algoritmos disputam cada segundo de foco, refinando técnicas para capturar impulsos cerebrais e prolongar o tempo de tela.

Em contraste, o cinema — uma das formas mais tradicionais de narrativa — se tornou um ato quase subversivo: uma imersão em uma única história, sem notificações, sem scroll, sem “pular anúncio”.

Estudos em neurociência indicam que esse tipo de imersão contínua ativa redes cognitivas de empatia e memória profunda, as mesmas responsáveis por aprendizado e consolidação de experiências. Ou seja, assistir a um filme inteiro pode realmente ser mais “produtivo” — no sentido de restaurar funções mentais comprometidas pelo excesso de estímulos digitais.


#O retorno do foco como luxo

Entre jovens adultos, há uma crescente valorização do “ócio consciente” — práticas como caminhar sem fones, ler livros físicos ou assistir a filmes clássicos tornaram-se uma forma de resistência silenciosa ao ruído da hiperconexão.

Na prática, o foco virou um símbolo de status cognitivo: quem consegue se concentrar por longos períodos hoje pertence a uma minoria funcionalmente privilegiada.

Em um mundo que recompensa o imediatismo, assistir a um filme inteiro sem olhar o celular é o novo luxo discreto.

Uma pequena rebelião contra a era das notificações infinitas — e, talvez, o ato mais simples de reconexão com o que significa estar verdadeiramente presente.

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